Sobre o PRP-BR e as FP25 de Abril

Respostas de Fernando Silva, membro do PRP e das FP25 de Abril, às perguntas do escritor Rui Galiza realizadas em Outubro de 2012 para o projecto de livro sobre a luta armada em Portugal a editar pela Assírio e Alvim.

Antes de responder às perguntas que coloca quero fazer algumas considerações gerais. Passaram já mais de 30 anos sobre os últimos factos praticados no âmbito do “caso PRP” e mais de 20 sobre os praticados no âmbito do caso FUP/FP25 de Abril. Tratam-se de factos prescritos judicialmente, pelo que ninguém pode evocar a violação de principios de conspiratividade para impedir que se fale deles de modo aberto, terminado que está este percurso. Haverá pormenores que apenas concernem aos directamente implicados, que não adiantam nem atrasam para a compreensão do que realmente se passou, mas o que respeita às linhas gerais com as quais se teceu aquele projecto político deve ser conhecido, de modo a permitir uma melhor análise dos acontecimentos a quem estiver realmente interessado em perceber o que aconteceu.
No âmbito revolucionário sempre esteve presente o não reconhecimento da Polícia e dos Tribunais como espaços onde dar a conhecer a verdade histórica, uma vez que estas instituições se encontram sempre ao serviço da ordem social que se combate, revelá-la ali apenas servirá para lhes facilitar a tarefa repressiva e as condenações. Por isso, a posição revolucionária típica é a de não prestar declarações ao Tribunal, não o reconhecendo ou, prestando declarações, não confirmar as acusações que levaram o revolucionário e os seus companheiros ao banco dos réus, mentindo se for caso disso; tentando assim minorar os danos e conseguir a absolvição das acusações. Por isso nos casos como este de que falamos, a verdade histórica é algo que só tem condições para conhecer-se passado muito tempo sobre os factos, quando a distância no tempo impede que o preço para se saber a verdade tenha que ser pago por ti ou pelos teus companheiros de luta.
Estranhamente, o que se verificou, no caso PRP e, como se fora uma herança genética, no caso FUP/FP25, foi a assumpção como verdade das teses de defesa em Tribunal pela maioria das principais figuras dos respectivos processos. Insistindo-se na falsa versão usada em Tribunal para defender-se das acusações do inimigo, mesmo muitos anos depois dos julgamentos, à data em que conhecer-se a verdade histórica já não lhes traria mais problemas. Falseando a história que realmente viveram, assumindo como verdade histórica a mentira que contaram em Tribunal. A verdade deve ser escondida, se se é perseguido ou companheiros podem ser perseguidos pelos factos revelados por essa verdade. Agora, se os factos pertencem a um passado longínquo, se não podem afectar mais do que a imagem de algum companheiro de percurso com vergonha de assumir a sua prática, a verdade histórica deve dar-se a conhecer, para que as gerações futuras aprendam com os nossos erros e por respeito à memória dos companheiros que deram a vida nesta luta. Com mais razões ainda se aqueles que tomam a palavra sobre os factos, passados mais de 30 anos, insistem na mentira.

Razões para a adesão ao projecto do PRP-BR. O que levava alguém/um jovem no pré/pós-25 de Abril a aderir a um projecto com estas características?

Terão sido várias as razões para a minha adesão ao PRP-BR, mas destaco, como a mais remota, a minha participação na actividade da JOC (Juventude Operária Católica) desde o início de 1973, tinha 14 anos. Mangualde era uma vila com uma actividade industrial fora do normal no interior do país. Ali estava (ainda está) instalada a fábrica de montagem de automóveis Citroën, com as indústrias acessórias, e várias pequenas e médias empresas da área têxtil, malhas, camisarias e confecção em geral, na altura estavam ainda em exploração as minas de urânio, pelo que também havia um número considerável de mineiros. No sector têxtil a exploração da mão-de-obra atingia níveis escandalosos (ainda hoje é assim), e a JOC, recém lançada ali, debaixo da protecção da igreja católica, era a instituição com infraestrutura e cobertura que permitia o encontro “sem problemas” de “duas dúzias” de jovens de ambos os sexos, a maioria esmagadora operária ou trabalhadora nos serviços, que, à mistura com umas cantigas, iam discutindo os “casos” nas várias fábricas, as condições precárias de trabalho, e que, quando a ocasião se proporcionava, organizava iniciativas, como a da celebração do 1º de Maio de 1973, no Salão Paroquial, que motivou a presença de agentes da PIDE à porta com controle de identificação a quem ali se dirigiu. Como ainda não possuía Bilhete de Identidade não me deixaram entrar, mas os pides não conheciam as outras possibilidades para se aceder ao interior daquela antiga igreja, pelo que não me conseguiram impedir de participar no meu primeiro 1º de Maio.
A informação que chegava através dos jovens universitários que estudavam em Coimbra, no Porto e em Lisboa, alguns deles já envolvidos na luta política, militantes em organizações maoistas e trotskistas, terá sido a razão mais próxima.
Com o 25 de Abril passaram a chegar a Mangualde practicamente todas as publicações de cariz político, da Merd@ ao Avante. A maior parte destes eram vendidos na papelaria, os demais vinham pela mão desses jovens universitários. O 1º numero do Revolução, orgão do PRP-BR, foi um amigo de infância, Quim, que o comprou na papelaria do sr. Afonso. Da identificação com as propostas revolucionárias do seu conteúdo surgiu a simpatia pelo PRP-BR. Curiosamente, o primeiro contacto com alguém do PRP-BR dá-se de modo fortuito no verão de 1974. Vivíamos em Cubos, onde se situa a estação dos caminhos-de-ferro. Todos os dias, depois de jantar, esperávamos (eu e esse amigo) a chegada do Sud-Express para pedir boleia até à vila, (ali íamos tomar “a bica” e participar do convívio daqueles tempos, onde nos juntávamos, toda a esquerda, sem sectarismos, do PS à extrema-esquerda), aos condutores que tinham ido esperar viajantes ou aos taxistas que tomavam passageiros chegados no comboio. Esta rotina pôr-nos-ia em contacto com dois funcionarios do PRP. Um, “Frade” natural da região, que tinha sido deslocado pela direcção do PRP-BR para lançar o partido no distrito, tinha ido esperar ao comboio o outro, “Mário Jovem”, que se deslocava de Lisboa a Viseu para uma reunião de lançamento da ORAJT (Organização Revolucionaria Autonoma da Juventude Trabalhadora). Nos três quilómetros que medeiam entre os dois pontos, a conversa centrou-se na política, como não podia deixar de ser naqueles dias. Perguntados por qual era o nosso partido, respondemos à uma “o PRP-BR”. A surpresa viria depois; chegados a Mangualde, o “Frade” pára o carro, sai connosco, dirige-se à traseira e ao mesmo tempo que nos diz “tenho aqui uma coisa que talvez vos interesse”, abre a mala do carro, pergunta: “com quantos exemplares querem ficar?”. Na mala estavam vários maços com jornais, cada um com dezenas de exemplares dos números até à data editados do “Revolução”, órgão oficial do PRP-BR. No dia seguinte estávamos na reunião da ORAJT em Viseu e assim iniciei a minha militância no PRP-BR

Com a passagem à clandestinidade das BR em Outubro de 1975, que relação havia entre o PRP “legal” e as BR? As BR Eram autónomas ou a linha política e operacional provinham da direcção política do PRP?

A passagem das BR à clandestinidade não alterou a relação existente. O PRP-BR não era uma organização política que tinha um braço armado, nem tão pouco um aparelho militar que tinha um braço político. Buscava uma nova síntese entre a luta política e a luta armada, tal como entre a luta legal e a luta clandestina. Os militantes das Brigadas Revolucionárias estavam enquadrados no PRP, mas nem todos os militantes do PRP participavam nas actividades das BR. A apresentação pública em conferência de imprensa da passagem à clandestinidade das BR, com dirigentes conhecidos do PRP-BR de cara descoberta e militantes do PRP-BR encapuçados é uma imagem que fala por si. Funcionou como alerta, interna e externamente, de que os tempos que viviamos eram de perigo e que estava em preparação um golpe para acabar com o processo revolucionario, com as consequências inerentes. Sempre entendi a passagem à clandestinidade das BR como um acto de defesa da organização, por um lado, e, por outro, de “aviso à navegação” de que o Processo Revolucionario Em Curso perigava, tornando emergente a possibilidade de luta armada generalizada.

À parte: (Um mês depois dá-se o 25 de Novembro. O que posso dizer é que os planos de acção, preparados anteriormente à escala nacional, para resposta em caso de golpe fascista ou contra-revolucionário, não tiveram aplicação práctica. Localmente, falo do levantamento pormenorizado de todos os pontos estratégicos da região: pontes, subestações electricas, postos da PSP e GNR, quartéis… e dos meios para os neutralizar, paióis das pedreiras, armeiros, etc. Em 25 de Novembro de 1975 telefonámos vezes sem conta para as ligações que havia, também para a sede central do PRP, para saber quais as orientações e a resposta foi invariavelmente a mesma: “A Direcção está reunida…”. A informação de que estávamos a viver um golpe de direita veio através do pessoal de Mangualde que estudava em Coimbra, que telefonou para o café “Ideal” onde habitualmente nos encontrávamos. Éramos um grupo de gente de vários partidos e organizações de esquerda, decidimos retirar para a minha aldeia onde dispúnhamos de apoio da população e de armas para nos defendermos. Pelo caminho passámos por casa de um dirigente distrital da CGTP-IN, militante do PCP, cuja companheira tinha telefonado para o café informando-nos que tinha a casa cercada, que vários carros se tinham posicionado estrategicamente nas ruas adjacentes e faziam correrias e peões diante da sua casa. Quando já nos encontrávamos dentro de sua casa e as informávamos, a ela e à sogra, que o golpe era de direita, convidando-as a acompanhar-nos… estalou um tiroteio na rua. O sindicalista Assunção chegava de carro a casa, vindo de uma reunião em Viseu (só na porta do seu lado, no dia seguinte, eram visíveis 7 orifícios de bala). Conseguiu fugir e refugiar-se na esquadra da PSP, perseguido por membros do ELP, retornados das ex-colónias ávidos de vingança, democratas-cristãos, sociais-democratas, socialistas, membros da comunidade cigana mangualdense (que pagavam a dívida de muitos anos à família Galvão de Melo, oriunda dali, por tê-los deixado acampar nas suas terras ao abrigo da perseguição da GNR no tempo da ditadura). Aproveitámos a confusão e abandonámos a casa pelas traseiras; por entre barricadas erigidas nos pontos estratégicos de Mangualde, conseguimos chegar à minha aldeia, onde nos distribuímos por casas com as armas que possuíamos.
Ouvido o discurso de Melo Antunes: “o Partido Comunista é essencial à Democracia”, no dia seguinte, regressámos à vila, ao mesmo café de todos os dias; quem tinha arma curta foi armado.
Rebentaram várias bombas em Mangualde, os alvos: militantes do PCP e do MDP, os autores: a Rede Bombista de direita. Talvez por saberem que estávamos armados e responderíamos, nunca atentaram contra nós.)

A prática das BR no pós-25 de Abril. Registaram-se assaltos a bancos e outras acções, com recurso a armas e explosivos?

A negação da prática de acções armadas depois do 25 de Abril por parte de alguns dos mais destacados dirigentes históricos do PRP-BR, passados todos estes anos, é incompreensível do ponto de vista histórico e uma vergonha do ponto de vista revolucionário, só explicável à luz da sua integração no sistema que disseram combater. Que uma organização revolucionária se financie com o dinheiro recuperado nos bancos devia ser motivo de orgulho, num tempo em que se tornou visível para o cidadão comum que os banqueiros são ladrões insaciáveis, que beneficiam da total protecção dos Estados nas suas actividades correntes. Mesmo quando os negócios lhes correm mal, como agora, os Estados não hesitam em aplicar o dinheiro dos cidadãos contribuintes para tirar os bancos de dificuldades; e mesmo aqueles que acabam por falir não arrastam na queda os seus proprietários e administradores, cujo botim acumulado está sempre a bom recato. A nacionalização da banca portuguesa, em Março de 1975, e a sua posterior devolução com as contas saneadas, mais o pagamento de chorudas indemnizações aos anteriores proprietários, ilustra bem a relação do Estado com os bancos.
À época em que o PRP e outras organizações da chamada esquerda revolucionária financiavam a sua actividade política através de assaltos a bancos nacionalizados, não era estranho e compreende-se que essas práticas não fossem publicamente assumidas; se o fizessem, para além das consequências repressivas sobre estas organizações que tinham uma prática política legal, apareceriam de imediato também os “defensores dos trabalhadores”, clamando contra os “ladrões” que roubam a “banca do povo”, fazendo frente comum com a polícia e os tribunais. Agora, 30 anos depois, passados todos os trabalhos de dezenas de processos judiciais, de que resultaram muitos anos de prisão, repartidos por algumas dezenas de militantes revolucionários, quando assumir aquilo que de facto se fez como prática política já não tem consequências ao nível repressivo, não faz sentido e é incompreensível que se insista na mentira.
Os dirigentes que não perdem uma oportunidade para repudiar algumas práticas armadas do PRP depois do 25 de Abril, atirando esses “pecados” para cima daqueles que arriscavam a vida na 1ª linha, garantindo entre outras funções a sobrevivência económica de uma pesada estrutura, mais não fazem do que estimular-me a sair da passividade e a contribuir para que se faça luz sobre esses factos. A liberdade de cada um dos implicados para falar ou calar está para mim fora de causa. As acções com recurso a explosivos usualmente atribuídas ao PRP (Centros Regionais da Reforma Agrária, comícios da CAP, Estátua de Salazar em Sta. Comba Dão…) foram acções tácticas da organização. É oportuno lembrar que o PRP não reivindicou nenhuma das acções realizadas depois do 25 de Abril de 1974. (Não tenho a certeza, mas creio recordar que algumas delas foram reivindicadas em nome de Grupos Autónomos)

O que, sob o seu ponto de vista, ocorreu em Massarelos (uma provocação/cilada)? Foi uma acção com o conhecimento/mandatada pelos líderes históricos do PRP?

Que uma acção de fuga de um militante do PRP detido na zona prisional da PJ do Porto resulte na intercepção por uma equipa da Polícia Judiciária dos dois operacionais que o esperam no primeiro apoio, sendo certo que ele em nenhum momento saiu da sua cela, indica, por si só, a forte possibilidade de existência de uma cilada. Podem acrescentar-se à análise objectiva deste episódio, dois factos: a recusa em participar de pelo menos um dos contactados para integrar esta acção, por considerar inverosímel e suspeito o plano proposto, e o facto de um outro, que deveria participar na acção ter-se enganado, (providencialmente ou não), no sítio de encontro prévio à montagem da operação, tendo sido substituído à última hora.
Recorde-se que estes incidentes resultaram na morte de um agente da PJ, sendo outros agentes feridos a tiro. António Guerreiro, militante do PRP deslocado de Lisboa para participar na operação, que também foi gravemente ferido no confronto, saiu do carro onde se encontrava ao volante para resgatar das mãos dos agentes da polícia o seu companheiro de acção que acabava de ser detido a poucos metros de distância, quando este esperava o militante que supostamente iria chegar ali, depois de fugir das instalações da zona prisional da PJ do Porto. António Guerreiro viria a ser vilipendiado e responsabilizado pelos incidentes de Massarelos, por dirigentes históricos do PRP em entrevistas concedidas a jornais alguns meses depois, na prisão. É evidente que esta acção da estrutura clandestina do PRP não teria sido realizada sem o conhecimento e aprovação dos máximos responsáveis. O apoio médico para tratar António Guerreiro teve de deslocar-se de Lisboa ao Porto. Na operação de transporte do militante ferido para Lisboa, o carro que transportava o apoio médico foi interceptado numa operação stop das forças policiais na Figueira da Foz. O seu condutor, Dinis Lucas, transformar-se-ia em seguida em “arrependido” e seria o principal instrumento da polícia na ofensiva dirigida contra o PRP, três meses depois.

Tem ideia (mesmo que seja uma projecção) de quantos elementos do PRP-BR ficaram numa situação de clandestinidade após a onda de prisões?

Calculo que terão ficado clandestinos entre 30 e 40 militantes.

Houve algum destino previligiado para o exílio e/ou verificou-se no mesmo o apoio/colaboração de organizações estrangeiras? Como era vista por esses exilados a estratégia de luta e declarações dos líderes históricos e de outros detidos?

Houve vários companheiros clandestinos que se mantiveram no interior do país. O destino privilegiado, natural, foi Espanha, pela proximidade e pelo apoio de várias organizações revolucionárias do Estado espanhol. Houve companheiros que se exilaram na América Latina, outros em França e na Argélia. As declarações dos lideres históricos foram recebidas com surpresa, desilusão e apreensão, enunciavam a quebra da solidariedade com os companheiros que se encontravam na situação de clandestinidade e a não-aceitação da direcção política que se encontrava em liberdade.

Em que medida se pode considerar o Projecto Global como uma espécie continuidade lógica do projecto político-insurreccional do PRP-BR?

Não é uma espécie de continuidade lógica, é a continuidade do projecto político-insurrecional do PRP-BR, dos aspectos ideológicos aos meios e infraestruras. As transformações nas fórmulas orgânicas, mesmo a organização do projecto em componentes, sofrem poucas alterações. Já em 1976 o PRP tinha impulsionado esta fórmula orgânica que funcionava com uma Direcção Estratégica. As transformações operadas, que vieram a configurar o designado Projecto Global, são obra dessa Direcção Estratégica.

E as FP-25, um mero “braço armado” da FUP? Por outras palavras, depois da experiência do PRP-BR, os operacionais das FP25 sujeitaram-se a nova direcção política ou operavam com alguma autonomia? Houve neste contexto alguma alteração/evolução ao longo da história da organização?

A evolução organizativa relativamente à situação anterior decorre da decisão de responder à recuperação capitalista com a prática da violência armada (que até aqui tinha sido escassa e não assumida), reivindicando as acções a realizar. Uma maior autonomia de funcionamento das várias componentes é uma transformação necessária à defesa do projecto.

Em algumas declarações depreendem-se divergências no seio da organização, divergências politicas e também tácticas. Entre operacionais e políticos. Entre a organização legal e a clandestina. Em que se consubstanciavam tais divergências? (No destino a dar aos fundos obtidos? Na linha operacional e insurreccional?)

Não sei a que declarações se refere a pergunta, em concreto, mas era natural que houvesse divergências. O enquadramento de militantes oriundos de outras experiências da luta anti-capitalista nas fileiras do projecto potenciou a discussão à volta das grandes questões, do funcionamento orgânico aos objectivos, que já vinha do tempo do PRP, não sendo de estranhar que divergências se tenham tornado visíveis e se tenham concretizado cisões. Por outro lado, a discussão interna sobre as questões de ordem táctica e estratégica merece uma análise mais aprofundada, a partir da qual poderá conhecer-se o que estava realmente em causa por detrás dos vários posicionamentos, que não se dividiam necessariamente entre operacionais e políticos ou entre organização legal e clandestina.

O que foram os GAR’s e a ORA? Concretamente, “apendices” das FP-25 ou organizações com uma verdadeira praxis própria?
OS GAR e a ORA resultam de duas cisões de militantes das FP25. Apesar de efémeras foram organizações com praxis própria.

Que observação lhe merece a táctica da defesa dos chamados dirigentes durante o primeiro processo? Concorda que houve diferenças substanciais no apoio aos arguidos quando se equipara o primeiro processo com o chamado processo dos operacionais?

Alguns dos dirigentes presos não observaram as orientações de defesa propostas pela direcção no exterior: A de não prestar declarações, o requerimento de julgamento com jurados, etc. Quando sou preso, em Outubro de 1985, o julgamento já tinha começado. O teor das declarações prestadas em tribunal por alguns dos principais arguidos, que nos chegavam à prisão, foi o principal motivo para a decisão de me assumir como membro das FP25 de Abril em tribunal. Eu e o Luís Gobern Lopes, que tinha sido preso poucos dias depois de mim, decidimos intervir quando chegasse a nossa vez, assumindo-nos como membros das FP25 de Abril e fazer a defesa da organização e da sua práctica, que vinha sendo vilipendiada em tribunal. E desta decisão demos conta aos implicados, aos que já tinham prestado declarações, aos restantes presos e à direcção no exterior da prisão. É evidente que houve uma mudança de tom nas declarações posteriores, mas era já impossível corrigir a estratégia de defesa enunciada. Nós tentámos, de algum modo, com a nossa intervenção, minorar ao máximo os danos, contrariando a tese da acusação e potenciámos de algum modo a estratégia que a defesa dos principais acusados tinha delineado, afirmando que as FP25 de Abril não tinham relação orgânica com nenhuma outra componente do Projecto Global, mas é uma decisão pessoal tomada sobre os acontecimentos e que não foi determinada pela direcção no exterior, antes pelo contrário, fomos mesmo criticados por tomar essa decisão.
O apoio aos arguidos do 2º processo ressentia-se de uma realidade inquestionável: a organização estava praticamente desmantelada, os meios escasseavam e as divisões entre os processados não ajudavam a uma articulação dos esforços da defesa nesse julgamento.

Houve declarações sobre as negociações referindo-se às mesmas de forma pouco abonatória. Registou-se uma vontade legitima de parte a parte em “arrumar” o assunto ou em cima da mesa das negociações estiveram de facto eventuais ‘segredos lesa-pátria’?

Não sei a que declarações a pergunta se refere. Formalmente, as negociações nunca passaram da fase conversações através de mediadores. Eu só tive parte activa nesse processo depois de ter saído em liberdade por excesso de prisão preventiva. Ninguém pode questionar a vontade da nossa parte de “arrumar” o assunto; já o mesmo não pode afirmar-se no que respeita à parte do poder, que esteve sempre dividido sobre a questão. A solução política para o “caso FUP/FP25” transformou-se num peão de xadrez no tabuleiro da luta política institucional, até que o lento desenrolar dos mecanismos judiciais e a própria passagem do tempo acabaram por resolver os processos judiciais que a amnistia dirigida para o “Caso FUP/FP25” tinha deixado de fora. Não sei a que “segredos lesa-pátria” pode a pergunta estar a referir-se.

A luta armada em Portugal nas décadas de 70 e 80 é uma “história” por contar? Há ‘vergonha’ em assumir um passado de luta neste contexto?

A luta armada em Portugal nas décadas de 70 e 80 é uma “história” da qual apenas se conhece uma parte, como é natural num assunto desta importância, pelas implicações que perduram no tempo, com consequências na vida dos envolvidos. Há muito por contar e algo do que foi contado é do domínio da ficção histórica, versões que servem a reconstrução de biografias que foram vividas de modo, por vezes, substancialmente diferente pelos seus protagonistas. Contudo, a esta distância temporal, é inevitável o aparecimento de outras versões e do somatório do que venha a ser contado e estudado, a essência da verdade acabará por dar-se a conhecer. Se há “vergonha” é alheia, sempre tive claro para mim que a verdade histórica tinha que saber-se quando fosse inócua, mais ainda quando a passagem do tempo, em lugar de ir fazendo luz sobre o realmente vivido o que nos traz é o reafirmar insistente daquilo que não foi.

Pode-se esperar que um dia os antigos membros das FP-25 contem a sua visão da história da organização?

Estou convencido que sim, mas cada um é livre de falar ou calar.

As negociações de libertação dos presos do caso FUP/FP25. Quando teve inicio este processo negocial e de onde partiu a iniciativa do mesmo? Em termos de armas entregues às autoridades, pode-se falar de um número/quantidade significativa ou tratou-se de actos simbólicos?

Estava preso quando teve início o processo negocial, a iniciativa partiu da Direcção Politico-Militar do Projecto Global, no exterior. Em meados de 1987 todos os militantes presos receberam uma carta onde se propunha o início de um processo de negociações com vista a encontrar uma solução política para o Caso e que pedia resposta escrita. Eu respondi.
Nenhuma arma foi entregue às autoridades. Mesmo a única entrega simbólica, meia dúzia, literalmente, de armas curtas, “queimadas” por terem disparado nas acções mais graves reivindicadas pelas FP25 de Abril e vários dispositivos electrónicos de controlo remoto, arma que nunca chegou a ser utilizada pelas FP25 de Abril, foram entregues, inutilizadas, de forma que as tornava não identificáveis, a jornalistas, à porta do cemitério dos Prazeres em Lisboa, como foi amplamente noticiado na altura.

Posso pedir-lhe um comentário à seguinte frase de Carlos Antunes (Público, 24.12.2008 – resposta):
“(…) Esta expulsão deu-se por, em vésperas do nosso julgamento, este grupo (que deu origem às FP- 25) ter assassinado na Marinha Grande um indivíduo chamado Plácido, que deles tinha sido cúmplice em desvios de dinheiro do PRP.
É evidente que, estando nós presos, a polícia nos acusaria, como acusou, de sermos nós os mandantes desse assassinato. Nós, presos do PRP, fizemos então um comunicado onde acusámos o grupo de gangsterismo. Como se previa, fomos acusados e interrogados pela polícia.(…)
Na sequência desta situação, este grupo montou um teatro para a nossa expulsão, mas o momento de ruptura já tinha acontecido quando tornámos pública a nossa ruptura, como repúdio pelo assassinato”.

Carlos Antunes contorna as questões que eu coloquei na carta ao director do Público, respondendo a um plural inexistente.
O “indivíduo chamado Plácido” a quem Carlos Antunes faz referência era uma individualidade que assumia o cargo de vice-comandante da Militarização na Região Centro do PRP, com assento na Direcção Estratégica. Tinha sido preso na sequência dos incidentes de Massarelos e libertado pouco tempo depois de ter prestado declarações nos autos que incriminavam os seus companheiros. A isto chama-se traição, que no projecto em que estávamos envolvidos se pagava com a morte. A alusão de Carlos Antunes a desvios de dinheiro é nova para mim, interpreto-a como uma cortina de fumo lançada para evitar interrogações sobre o que se terá passado na cisão do PRP. A verdade é que a esmagadora maioria dos militantes do PRP na legalidade, reunidos em plenário de responsáveis, votaram a expulsão dos seus dirigentes históricos quando estes estavam presos. Uma decisão destas ou estava bem motivada ou nunca seria tomada. A maiora dos militantes na clandestinidade apoiou esta deliberação. Os dirigentes expulsos, principais arquitectos e ideólogos do projecto PRP-BR, depois de presos passaram por cima dos princípios que sempre defenderam, dos objectivos estratégicos e dos métodos, sem dar explicações a ninguem; os militantes do PRP que acreditavam no projecto não aceitaram esta atitude e expulsaram-os.

Muitas opiniões referem-se às FP25 como uma manifestação já “tardia” do PREC e do ciclo do chamado “euro-terrorismo” dos anos 70. Concorda com esta visão de que as FP25 eram, logo no seu surgimento, já uma organização fora do seu tempo, ou a especificidade portuguesa conferia-lhe toda a actualidade?

Não sei a que opiniões se refere a pergunta. Não conheço os seus argumentos, nem quando foram produzidas. Que a História podia ter sido outra? É claro que sim! Mas foi a que foi. Que a resposta violenta à recuperação capitalista, iniciada em Portugal após o golpe militar de 25 de Novembro, que pôs fim ao processo revolucionario em curso, teria produzido resultados substancialmente diferentes, se se houvesse manifestado no próprio dia do golpe, ninguém porá em dúvida. Carlos Antunes, um protagonista do campo insurrecional de então, afirma agora que evitou “a guerra civil” e “um banho de sangue” em Portugal nessa altura. E terá razões para produzir afirmações tão relevantes. O que ainda estamos para saber é qual foi o papel da Direcção do PRP-BR nos acontecimentos. Essa parte da História ainda está por contar sem tibieza nem vergonha de assumir as nossas fragilidades e erros. Passados pouco mais de dois anos e meio sobre o golpe de 25 de Novembro de 1975, Carlos Antunes foi preso juntamente com dezenas de militantes do PRP, ao mesmo tempo que outros tantos tinham de passar à clandestinidade. Neste lapso de tempo o PRP não mudou o seu discurso insurreccional e revolucionário, adaptando a sua estrutura clandestina a um novo nível organizativo de militarização, e levou a cabo algumas acções violentas, ainda que em número reduzido e de forma não assumida externamente. Depois do lançamento da ofensiva policial contra o PRP, com a passagem à ilegalidade de dezenas de militantes e a desvinculação posterior dos seus dirigentes mais carismaticos, não restavam alternativas à eclosão da luta armada em Portugal da forma como se manifestou, era uma consequência lógica. A esta situação interna de grande complexidade que se viveu no PRP, viria a somar-se a adesão ao projecto de militantes oriundos de outros processos de luta, o que potenciou o aparecimento das FP25 de Abril, seguindo a pauta desses anos noutros pontos da Europa e do Mundo, onde uma sigla aparecia para capitalizar politicamente a luta armada. A situação ao nível social tinha chegado a extremos impensáveis de atingir-se no “Portugal de Abril”: devolução das empresas aos patrões, desocupação violenta das terras ocupadas a latifundiários, repressão sobre os movimentos sociais, anulação de direitos conquistados pelos trabalhadores e situações de exploração inauditas com meses de salários em atraso, etc. Para mim as FP25 foram a última expressão organizada da derrapagem que se seguiu à derrota do movimento revolucionário em 1975.

Desculpe a pergunta, de facto muito genérica, mas quem eram os membros das FP25? É possível caracterizá-los mesmo que em traços gerais? Havia diferenças substanciais entre os vindos do PRP-BR e outros que então aderiram ao projecto?

Em traços gerais, e sem esgotar o “catálogo” porque há de tudo em todo o lado, quer os que continuavam do PRP, quer os outros, que aderiram ao projecto, eram na generalidade militantes generosos que tinham vivido intensamente o processo revolucionário e acreditavam na Revolução, na organização autónoma dos trabalhadores e na destruição do sistema capitalista que, confrontados com a violência da recuperação capitalista, tiveram a coragem de lhe responder violentamente da forma que se conhece. O resultado foi o que se viu e merece reflexão. Aprende-se muito, errando.

A chamada “esquerda revolucionária” do Portugal dos anos 70 e início da década de 80 praticamente extinguiu-se. Pode este facto ser considerado como uma herança do processo FP25?

Para mim, o processo FP25 é o ponto final do projecto insureccional derrotado por falta de comparência na batalha de 25 de Novembro de 1975. Hoje coloco-me a dúvida: se tivesse havido comparência nessa batalha e o nosso lado tivesse saído finalmente ganhador, viveríamos hoje um presente substancialmente diferente?… Não nos apresentámos, ficámos sem saber, mas também penso que não há que dar-lhe mais importância, uma vez que a verificação é impossível.
É natural que os integrantes da “chamada esquerda revolucionária”, aqueles que defendiam uma revolução que destruisse a ordem social estabelecida e não desejavam simplesmente melhorá-la, não estejam para gastar forças em projectos que, uma vez postos à prova, resultaram derrotados.

As FP25 “Mataram a Revolução”. Esta afirmação merece-lhe algum comentário?
É uma estupidez. Cheguei à conclusão de que revoluções eclodem quando a sociedade as gera, estão para além das organizações. As fórmulas organizativas hierarquizadas aplicadas até agora deram maus resultados; basta dar uma olhadela às revoluções triunfantes do século passado e ver no que acabaram. Nos momentos revolucionarios, as organizações vão atrás desse movimento natural da sociedade, para o conter e ordenar, retirando-lhe a espontaneidade, controlando-lhe o ímpeto natural para destruir a ordem estabelecida. Se nos detemos a analizar os processos revolucionários conhecidos, as organizações hierarquizadas foram mesmo o principal inimigo da revolução, porque participavam nela, quando o seu objectivo final era apropriar-se dos mecanismos do poder, aplicando a tese burguesa de que a revolução é a forma de mudar tudo para que tudo continue igual. Claro que as revoluções vindouras só têm a beneficiar com a divulgação desse conhecimento e, assim, poderiam chegar mais longe no desaparecimento das classes, da economia de mercado e do Estado, teria de ser, evidentemente, à escala universal. As associações, grupos ou revolucionários por si só, se quiserem, podem contribuir para a contestação revolucionária à sociedade moderna, formulando a teoria que a explique e critique, divulgando essa crítica nos conflitos sociais, onde todos e qualquer um dos realmente implicados se pode tornar estratega.

 

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